Contradições escondidas
Selvageria

Selvageria

soco-na-parede replied to your post: Então…

SAUDADES SALAME

FALA BODEEEEE <33

Então…

Eu meio que vou abandonar o tumblr. Criarei um blog assim que consiga ajeitar meus textos e postarei o link aqui assim que possível.

Aviso desde já que o blog terá um conteúdo muito diferente, mais descontraído e menos lírico.

Eu continuarei entrando aqui por causa de algumas tags que acompanho e de alguns amigos que fiz e com quem pretendo manter contato, porém tem uma alta probabilidade de eu não postar mais assim que o blog ficar pronto.

Obrigada por toda atenção.  

Anonymous: olaá :) acho que vai gostar desse tumblr: mariane-zaluzejos

Eu já sigo rs

"Olha por entre os vales de neblina e frio, a descida escura, prata, olha com o único olhar que tu sabe ter, insistente, desbravador, e então aceita que a tua vida ainda não foi desafogada. Deixa de escutar por um momento e também grita, expulsa, chora por todas as vezes que tu pertenceu a algo que não queria pertencer.
Teu corpo, quando encontrar com as vontades adormecidas do teu coração, é todo o instrumental de fundo que tua voz esqueceu ao trapacear."

- Mariane Cardoso in Ferrugem e cortes cegos

Eu relato suas maldades, mas me entrego diante de suas torturas

   O reflexo no espelho era pra ser meu, porém ele reflete seus olhos castanhos ao invés. Um rotineiro fantasma que carrega em sua ausência a mesma ameaça. Seu olhar derruba todas as minhas armaduras, deixando-me vulnerável ao seu ato de rascunhar em minha carne todo o nosso enredo de erros. Você nunca tenta seguir apesar de nós, e eu me torno outra vez a sua vítima preferida.

   São nos infinitos de chás fumegantes e meios cigarros que você me atenta. Ambas as fumaças são retratos nossos: esquivos, aparentes, sem consistência. Nos perdemos no ar, e você insiste em falhar o meu oxigênio. Também, só nos cruzamos no erro, no estrago, na balbúrdia. Éramos, somos ilegais. Meu crime são seus lábios; sua infração sou eu. A gente se mata pra poder se ter, e isso não é caminho pra ninguém. 

   A madrugada cai e com ela seu jogo de sombras. Meu forte de cartas está apostos, mas em cada corredor há uma armadilha sua. De novo você é o fim da trilha, o grande vencedor. Seu prêmio? A minha redenção. É essa sina masoquista que me persegue, fazendo-me sua no último minuto de um jogo no qual eu não consigo blefar. Minha fuga não te engana, nem minhas meias ações permeadas pelas mentiras desse coração que já não aguenta o sangue lhe sendo arrancado a cada nova resistência imposta à esse amor mortífero. Minha alma está outra vez nua, esperando uma nova tortura.

   Vou do céu ao inferno com seu beijo. O meio-termo interrompe nossos lábios e a gente congela na terra de pecados. Seus olhos castanhos me fitam e me causam o maior dos estragos. Eu me enterro neles e estou finalmente morta em você. Eu me enterro neles e estou finalmente viva em nós. Eu me enterro neles e é fim de história, outro início de nós dois e mais um retorno para aquele reflexo ameaçado no espelho. Foi só mais uma de nossas noites.

-Mary

(via whatwhowherewhy)

Detetive

   Acordo e afasto os cabelos arruivados de Maria dos meus olhos. O quarto se encontra na penumbra e eu ainda tenho seu corpo em meus braços. Não quero soltá-lo, embora saiba que o farei em poucos minutos. Os fleches do crime de ontem passam sequencialmente em minha mente. Maria é criminosa e seus atos afetam diretamente meus princípios. A amo, porém não me rendo. 

   Tiro o cabelo dela do pescoço e me inclino para beijá-lo. Meus lábios se ajustam ao seu corpo como se ali pertencessem, e pertencem. Maria, em sua carne, já não tem mistérios para mim. Mas sua alma ainda é um segredo o qual ela não me contou. Ela é uma mulher duvidosa e discutível e eu jamais estarei hábil para desvendá-la. Maria é o crime perfeito, sem pontas soltas ou erros. E por ser um crime, nos tornamos ilegais. Sou um detetive, a lei é minha trilha. Uma ironia quase prosaica é o que se pode dizer.

   Meus olhos castanhos abandonam seu corpo e minhas mãos traçam um último toque em seu rosto. Sinto o impulso de beijá-la, porém sei que sucumbiria aos seus lábios. Incorporo meu melhor disfarce e a deixo sob os lençóis. Ao chegar a porta, passa pela minha mente incendiar tudo, como fez Maria noite passada, matando um homem. Giro a maçaneta e estaco. Sinto seus olhos azuis me fitarem as costas, e me viro para um último olhar. Ela lê em meus orbes o que não poderia ser dito. Abandono meu disfarce e sei que ela sente. O escuro nos queima e já é tarde demais. Saio e fecho a porta atrás de mim. Suspiro, vou. 

   Eu encontrarei Maria nos crimes, a algemarei e deixarei a chave entre seus seios. Jamais poderia encarcerá-la numa cela. Nosso fim será por aí. Viverei Maria com o mundo, meu (e nosso) verdadeiro amante. 

    Finalmente entendi como Sherlock Holmes se sentia em relação à Irene Adler. A vida e suas ironias.

"You’ll miss me, Sherlock.

Sadly, yes.”

-Mary

Amor e minhas divagações errôneas

   Anedotas de esquina me contam histórias de amantes perdidas em becos de um destino sem saída. Sem rumo na multidão, desconhecidos a procura do encontro escondido em olhares alheios. São eles os mesmos participantes rotineiros daquele velho jogo sem vencedores ou vencidos, cujo único objetivo é sair acompanhado e suficientemente marcado pela essência do amor.

   Os contos desses romances pontuados pela vida nos deixam traçar um errôneo paralelo sobre ‘amar’. Ninguém jamais saberá a melodia desse baile de desencontros, onde ele sem querer toca a mão dela, fazendo com que se olhem nos olhos por um instante, sem se reconhecerem. Almas que são laços e não se entrelaçam pelo simples fato de laçarem outro pedaço de gente.

   Porém, há sempre um ser perdido que se eterniza, inesperadamente iniciando outra obra fervendo de perigo e doçura. O beijo dele traga a mais secreta verdade dos lábios da amada, seus carinhos os desvendam e esse viver os libera para uma juventude recheada de divertidos infinitos que acabam no mais inocente fim. Sem dramas, histórias retratadas nas portas de cinemas. Mais beijos, menos lágrimas. E também o inverso.

   Corações prostitutos se vendem ao mais singelo toque, e a dor que lhe é dada de troco quase mata. As paredes se enchem de desabafos antes rascunhados na própria carne. Angústia, mágoa, os olhos cinzentos. É só silêncio, mas você não houve o grito?

   O amor supõe o céu. Faz do fato o surreal. É arte, e deixa pra ser obra-prima depois. Existe, e não se define em suposições, metáforas e poesia. Não escreve, não canta, não assombra. Existe, e nos permeia. Tem sua própria história escondida em reticências, e não a conta. Há mistérios que são indecifráveis (como o amor e sua insônia). Não o desvendaremos, nem mesmo em seu último suspiro.

    O amor é o impronunciável, e ele tem mil disfarces. 

-Mary

       Caro Estranho,
   A paz que procuramos está nas entrelinhas do que não dizemos. Nosso silêncio tem sido como uma curva inesperada na nossa estrada de sonhos, e esse inusitado percurso tem causado acidentes quase mortais. Penso que, talvez, seja hora de tentarmos caminhos opostos, porém lembro que todas as ruas de todos os mundos são suas e acabam num mesmo atalho até você. Como escapar de um destino já trilhado? Como escapar de quem é meu parceiro de fuga?
   Você supõe mil histórias, incontáveis contos onde não cabem nossas linhas. Somos instantes. Estamos escritos em muros, cartas de baralho e tarô que relatam nosso amor em versos momentâneos e por vezes perigosos. Não cabemos em romances, não somos uma obra. Somos, sim, laços de um desconhecido que nos atam em um labirinto de amor insano. 
   Há um erro em nossos toques: entrelaço nossos dedos e eles não se juntam. Procuro seu olhar e lhe faço mil perguntas. Você costumava ter todas as respostas. Sinto medo, você também. Encontramos-nos agora num beco de inferno. Podíamos pular o muro, como tantas outras vezes fizemos, mas já não somos impulsivos. Trago seu cigarro e nos libero em fumaça na direção do céu. Beijo-te e enfim trago a sua alma. Seus lábios nunca me esconderam nada. Ali estava nossa saída. Viramos, então, numa esquina qualquer e encontramos um novo roteiro. Uma armadilha ou um novo começo?
         De quem te imagina e não te abandona, 
                     Sua moça perdida.
-Mary

       Caro Estranho,

   A paz que procuramos está nas entrelinhas do que não dizemos. Nosso silêncio tem sido como uma curva inesperada na nossa estrada de sonhos, e esse inusitado percurso tem causado acidentes quase mortais. Penso que, talvez, seja hora de tentarmos caminhos opostos, porém lembro que todas as ruas de todos os mundos são suas e acabam num mesmo atalho até você. Como escapar de um destino já trilhado? Como escapar de quem é meu parceiro de fuga?

   Você supõe mil histórias, incontáveis contos onde não cabem nossas linhas. Somos instantes. Estamos escritos em muros, cartas de baralho e tarô que relatam nosso amor em versos momentâneos e por vezes perigosos. Não cabemos em romances, não somos uma obra. Somos, sim, laços de um desconhecido que nos atam em um labirinto de amor insano. 

   Há um erro em nossos toques: entrelaço nossos dedos e eles não se juntam. Procuro seu olhar e lhe faço mil perguntas. Você costumava ter todas as respostas. Sinto medo, você também. Encontramos-nos agora num beco de inferno. Podíamos pular o muro, como tantas outras vezes fizemos, mas já não somos impulsivos. Trago seu cigarro e nos libero em fumaça na direção do céu. Beijo-te e enfim trago a sua alma. Seus lábios nunca me esconderam nada. Ali estava nossa saída. Viramos, então, numa esquina qualquer e encontramos um novo roteiro. Uma armadilha ou um novo começo?

         De quem te imagina e não te abandona, 

                     Sua moça perdida.

-Mary

Embaraços de um desvario doente

   Esperei o tempo certo para dizer que nós fomos errados. Inteiramente errados quando deixamos o nosso castelo de cartas para trás. Uma cigana me disse que a sorte não é feita de leituras baratas, mas uma contagem regressiva que badala cem vezes na catedral. É como esperar pela morte, sem saber se o presságio é sombrio. Um anjo noturno pôs-se a cantarolar uma canção de carnaval, para que as flores reinassem em meus dentes. Para que o céu se cobrisse, farto do meu cansaço e da minha preguiça de sair do quarto. Não importa quão incólume esteja, pois o mundo vem em meu encalço, arranha a sola do sapato, bate três vezes na madeira e me obriga a levantar da cama para contemplar a vista além da janela. Afasto a cortina, sacudo a grinalda de poeira, mas nada vejo além do breu. Não é noite, ainda não escureceu, todavia não há luz. Os faróis se apagaram, os fogos foram corroídos pelas chamas bruxuleantes do deserto. Tenho um segundo para fugir, mas a chuva está gotejando no telhado. Tenho medo de me molhar. Da poça funda e do oceano raso.

   Um milênio se passou, de sóis nublados e luzes escuras, ventos frescos e mentiras sábias nos lábios de quem não teve alma para amar. O coração submisso de um escravo solitário, que conjugou o verbo ser e se esqueceu de invadir o meu plural. Onde foi parar o mundo que era nosso reino simples, num casebre no meio do mato, perdido na estrada do perdidos-para-sempre? Se você se perder em mim, rogo aos céus que o labirinto seja um desvario inteiro de ilusões, para que a sua partida seja uma oração ao avesso. Mas se estiver perdido de mim, sem saber o caminho de casa, próximo à ladeira abaixo do quintal que tem flores selvagens, eu torno o impossível uma brincadeira fácil de criança. Podemos brincar de amarelinha, jogo da velha, invocar uma guerra de travesseiros para que nenhum de nós vença. Jogaremos baralho até os três batimentos cardíacos da madrugada, ingerindo um vinho doce e amargo, talvez um cântico soprado no ouvido, no ápice da euforia de um amor desesperado. E se você ri, meu amor, eu quero que o mundo se cale para escutar o som brusco e bruto do teu riso. E se todas as mulheres se inundam no silêncio para esconder a estrela que há em sua órbita, só para elas, como um segredo, meu peito se enche de um ciúme doente. Uma inveja desmedida, porque quem pode te tocar não merece afundar no lago negro dos teus olhos.

   O breu do sol tem me cegado todos os dias, quando o âmago agarra com unhas e dentes a tua sina. Pode dizer que é destino, e se não crê em linhas traçadas, nós simplesmente podemos discutir onde eu começo e você termina. Iremos discutir sobre o céu que nublou quando a sua partida iminente assombrou a minha voz, ou o campo de flores que há mais adiante, beirando a avenida treze. Pendurei a lua no teto do quarto e lá tenho um céu noturno, estrelado, onde podemos localizar as almas vivas na morte de Júpiter. Podemos não falar nada, ouvindo o tormento um do outro enquanto as peles conversam por horas a fio. Se estiver frio, de um vento tão gelado quanto à temperatura do fogão, você pode chegar mais perto que eu deixo. Deixo o seu ombro roçar no meu, e teu cabelo quase grisalho – pois a nossa ausência o envelheceu no último mês – servir de terapia para as minhas mãos trêmulas, os dedos pálidos e escorregadios, que teimam em capturar os teus fios para um calabouço secreto. Não sei onde fica. Não sei onde está a coragem de ir embora. Não quero ir, não quero me perder. Sem você, sem o pedaço daquele velho amor faroeste que ficou em minha vã tentativa de suicídio. Mata-me, meu amor, ou eu hei de sacrificar a nossa alma. Mata-me ou matarei. Puxa o gatilho e me manda para o inferno. Porque prefiro arder; preciso me machucar para entender que aqueles beijos abaixo de lençóis limpos, mas sujos com o pó da nossa paixão maldita, não existem mais. Preciso me machucar até a última gota de sangue brotar no azulejo. Teu fantasma me castiga, tua sombra me persegue, mas nada é pior que a crueza do teu desprezo. Morri pra você. Então morri para o mundo.

   Esperei o tempo certo para dizer que nós fomos errados. E ainda me culpo por esse frio que sinto aqui dentro… 

Camila M. Paiffer, com cada gota dessa alma noturna. 

(Source: blackroseslbl, via pequena-abelha)

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